Quando alguém fala em “falta de libido”, geralmente vem acompanhado de culpa, vergonha ou preocupação do tipo “o que tem de errado comigo?”. Mas o desejo sexual é muito mais complexo do que parece. Ele não desaparece do nada, nem é algo que você perde para sempre. E ele tem um caminho pra acontecer, chamado de ciclo de resposta sexual, que foi estudado pela ciência e contradiz muitos mitos que temos a respeito do desejo sexual, principalmente o desejo sexual feminino, também chamado de libido feminina.
A terapeuta Esther Perel lembra que o desejo nasce do contraste: entre proximidade e distância, familiaridade e mistério. Então, antes de se diagnosticar com “baixa libido”, vale desconstruir alguns mitos.
9 mitos sobre a falta de libido
Mito 1: Se eu te amo, devo te desejar sempre
Amor se alimenta da rotina; desejo gosta do inesperado. Estar apaixonada não garante excitação 24 horas por dia.
Mito 2: É só problema hormonal
Hormônios influenciam, mas geralmente estresse, cansaço, conflitos ou medicamentos pesam muito mais.
Mito 3: Mulheres não têm desejo
Esse mito é cultural, não biológico. Mulheres sentem desejo sim, mas muitas vezes de forma responsiva e muito ligada ao contexto.
Mito 4: Se não sinto vontade, acabou a relação
A falta de desejo não significa o fim da relação, mas um convite a repensar dinâmicas, comunicação e intimidade.
Mito 5: Desejo só vale se for espontâneo
Além do espontâneo, existe o desejo responsivo — aquele que surge depois do estímulo. Normal e saudável.
Mito 6: Fantasias significam que falta algo
Fantasias são combustível do erótico e podem fortalecer a intimidade, não fragilizá-la.
Mito 7: Meu corpo não responde, então sou fria
O corpo precisa de tempo, estímulo e segurança. Se não responde de imediato, não é ausência de libido, mas falta de condições.
Mito 8: Libido é igual todos os dias
O desejo oscila com fases da vida, hormônios, estresse. E isso é natural.
Mito 9: Só quem tem trauma perde a libido
Trauma pode impactar, mas não é a única causa. Cansaço, rotina e saúde mental também afetam o desejo.
Mito 10: Desejo e excitação sempre andam juntos
Pode existir uma não concordância da excitação em corpos femininos. Na prática, isso significa que você pode ter desejo sem que se sinta molhada, ou que se sinta molhada sem ter um desejo específico. Para corpos com pênis, a linha desejo excitação começa a ser uma reta > sentindo desejo, o pênis fica ereto, muitas vezes até sem toque algum.
O que fazer na prática
- Converse sobre desejo sem tabu.
- Cuide de sono, estresse e autocuidado.
- Explore fantasias, brinquedos eróticos e novas experiências.
- Busque ajuda profissional se o incômodo for persistente.
Desejo x excitação: o ciclo de resposta sexual
O desejo não segue uma única “linha reta”. Pesquisas em sexologia propuseram diferentes modelos:
- Masters & Johnson (1966): excitação, clímax, orgasmo, resolução.
- Kaplan (1979): adiciona a fase do desejo como ponto inicial.
- Basson (2000): modelo circular, com desejo responsivo e peso dos fatores emocionais e relacionais, especialmente em relações de longo prazo.
Homens tendem a apresentar um período refratário após o orgasmo, enquanto mulheres podem ter múltiplos orgasmos sem pausa fisiológica obrigatória. Além disso, o desejo feminino costuma ser mais sensível ao contexto e à qualidade da relação.
No ciclo de resposta sexual feminino, é comum que a fase de excitação preceda a de desejo, ou seja: para algumas mulheres é necessário que haja toque físico para que o desejo se construa.
FAQ
O que é libido?
É o interesse sexual, que pode aparecer de forma espontânea ou responsiva.
Quais são as causas mais comuns de baixa libido?
Estresse, cansaço, conflitos, medicamentos, alterações hormonais e falta de tempo de qualidade.
Anticoncepcional ou antidepressivo podem reduzir o desejo?
Sim. Procure uma profissional para avaliar alternativas ou ajustes.
Existe tratamento?
Sim. Depende da causa. Pode envolver terapia sexual, ajustes de medicação, cuidados com saúde mental e, em alguns casos, tratamentos hormonais.
Referências
- Masters WH, Johnson VE. Human Sexual Response. 1966.
- Kaplan HS. Disorders of Sexual Desire. 1979.
- Basson R. “The female sexual response: a different model.” J Sex Marital Ther. 2000.
- Brotto LA, Graham CA. “Sexual desire and arousal disorders in women.” BMJ. 2021.
- American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), boletins sobre função sexual.
- International Society for the Study of Women’s Sexual Health (ISSWSH), diretrizes clínicas.
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