REPORT CLMX | Novas formas de relacionamento no pós-pandemia

É quase impossível encontrar um relacionamento que tenha passado intacto pela pandemia. Pudera: depois de tanto tempo trancadas em casa, em par ou desacompanhadas, reflexões sobre o modo como nos relacionamos invadiram nossos pensamentos.

Tanto é que o número de divórcios cresceu durante esse período. O Brasil bateu recorde de separações no ano de 2021 – quando as normas de isolamento social ainda estavam restritas – chegando ao número de 80.573 casos.

Para as solteiras também não foi um período simples. Fenômenos como o F.O.D.A ("Fear of dating again" ou “medo de ter encontros novamente”, em português) marcaram este momento; e as que voltaram a paquerar agora estão encarando um novo universo, com normas, símbolos e signos diferentes na hora da paquera. 

Em resumo, seja pelo excesso de convivência ou pela ausência de um relacionamento, a maioria de nós parou para refletir, analisar e investigar o assunto. Mas isso, de fato, mudou a maneira como nos relacionamos? Conversamos com algumas seguidoras da Climaxxx para entender:  

O amor que resistiu

Na contramão das estatísticas, o casamento dos empresários Marcela e Daniel Prado sobreviveu à COVID. "Muitas coisas mudaram com a pandemia e escolhemos modificar a forma como nos relacionamentos. Decidimos ter mais sinceridade nos nossos desejos", compartilha Marcela em entrevista para Climaxxx.

Ela e o marido estão juntos há 20 anos e, segundo Marcela, o período da pandemia mexeu, sim, na dinâmica do relacionamento. Mesmo que a relação não tenha chegado ao fim, o fato deles estarem debaixo do mesmo teto 24 horas por dia e o nascimento do quarto filho do casal prejudicou o casamento. 

"Era muita convivência, muito tempo juntos. Quando tudo parecia muito estranho, fizemos um novo acordo: que íamos superar mais aquela fase", comenta Marcela. "Para superar a crise, decidimos investigar nossas vontades. No momento em que os rolês começaram a flexibilizar e voltamos a sair de casa, o desejo de flertar também reapareceu e isso fez com que imaginássemos novas formas de nos envolver", pontua Marcela, de 38 anos. 

Segundo a empresária, esse desejo repentino fez com que o casal conversasse sobre outras formas de amor, como o casamento aberto, por exemplo. Os dois, porém, seguem em um relacionamento monogâmico. "Ainda não tomamos nenhuma decisão, mas estamos conversando sobre o assunto. Essa crise nos fez entender que antes de um par somos indivíduos, com desejos e quereres pessoais."

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Assim como aconteceu com Marcela e o marido, o casamento da designer Amanda*, de 31 anos, também sobreviveu à pandemia. Ela relata ter enfrentado o mesmo problema: o excesso de convivência desgastou a relação de 9 anos.

"Antes do período nos víamos pouco, porque ele morava em outra cidade, mas de repente meu marido ficou desempregado e passou a tomar 'conta de casa’; como eu estava trabalhando de home office, nos víamos 24 horas por dia."

Outros fatores – como a síndrome de burnout e problemas familiares – também marcaram o ano de 2021 de Amanda. Isso contribuiu para que o relacionamento dela enfrentasse uma crise. "Estávamos saturados por ficar tanto tempo juntos", confessa.

Ela relata problemas no sexo: "Quase não transávamos durante o período. Não tínhamos tesão um no outro, o fato de eu ter engordado também mexeu com a minha autoestima, foi difícil... as coisas só melhoraram quando voltamos a interagir com outras pessoas, sair de casa. Além disso, a gente também resolveu testar coisas novas na cama. Parecia o começo do namoro.”

Foi neste momento que Amanda conheceu a Climaxxx. "Me redescobri na cama", afirma.  Já Marcela conheceu a Climaxxx graças ao marido, que resolveu presenteá-la com brinquedos sexuais. "No ano passado, o Daniel começou a me dar vários presentes eróticos, isso contribuiu para que eu parasse de ter vergonha de certas coisas que antes tinha vergonha de falar. Foi muito gostoso.”

 

Solteira? Sim. Sozinha? Jamais

Ao contrário de Amanda e Marcela, a diretora criativa Paula Chiodo, de 33 anos, passou a pandemia solteira. Ela terminou um relacionamento na primeira semana de lockdown e, desde então, segue sem nenhum envolvimento sério.

"Acredito que esse período em casa e sem contatinhos me fez perceber o que de fato quero em uma relação. Hoje sou muito mais fiel ao que acredito e às minhas vontades, aprendi a me curtir e valorizar mais", garante Paula.

Uma pesquisa mundial realizada pelo aplicativo de namoro Bumble em novembro de 2021 comprova o que Paula diz. Mais da metade (59%) dos usuários afirmaram que agora são mais honestos com seus parceiros sobre o que desejam; no Brasil, a taxa é de 50%.

Tal qual na vida sexual das casadas, a pandemia também influenciou o sexo das solteiras. Pelo menos é o que relata Paula. "Aprendi a conversar sobre o assunto... antes já era desbocada, mas agora falo sobre vontades, desejos e até inseguranças no sexo de uma forma bem casual. Tem gente que estranha às vezes."

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E a partir de agora, o que será? 

Ainda é difícil sintetizar todos os aprendizados e mudanças da pandemia. Mas uma coisa é certa: estamos vivendo uma revolução. 

Na opinião da psicóloga e especialista em relacionamentos Geni Núñez, outro fator (além do excesso de convívio e do isolamento social) também impactou a maneira como nos relacionamos, o "aumento da virtualidade da vida".

"Discussões que antes eram restritas a alguns grupos, por causa das redes sociais, furaram bolhas e ganharam maior visibilidade. A pandemia foi e continua sendo um fenômeno de imensa vulnerabilidade. E essa vulnerabilidade vem em múltiplas camadas -- momento em que passamos a questionar se os modelos normativos de existência realmente estão dando conta de amparar nossas angústias. No caso da não monogamia, por exemplo, ela não é exatamente uma nova forma de amor, ela já existia aqui neste território muito antes da invasão colonial de 1500. A diferença é que agora esse debate tem tomado maior visibilidade, especialmente quando pessoas de grupos sociais privilegiados usam seus espaços para falar sobre isso", pontua.

Para a especialista, não existe um só destino para as relações pós-pandemia. Na verdade, há vários caminhos. "Tenho pensado na importância de, coletivamente, fazermos um reflorestamento emocional. Assim com a terra, nós que também fazemos parte dela, estamos muito feridos e machucados pelas violências da colonização, inclusive no âmbito emocional. Por isso que, nesse sentido, a cura da terra também será/é a nossa. Como diz um autor que gosto muito, o Frantz Fanon, a violência é o próprio estado do mundo colonial que vivemos, de maneira que para interromper esse estado são necessárias forças contra-coloniais. Contra as violências de gênero, raça, classe, contra as violências ambientais, contra o racismo religioso e tudo que for monocultura. Toda relação poderia ser amorosa, inclusive a dos humanos com os demais seres."

E por aí, como anda o coração? A gente espera que, mesmo no meio de tantas mudanças, você consiga validar -- e entender -- os seus desejos, escutar as suas próprias vontades e se manter conectada com a pessoa que você mais deve amar no mundo: você mesma.

Pequenas cápsulas de afeto 

Mais algumas histórias que ganharam nossos corações:

"Minha vida amorosa nunca foi tão movimentada quanto depois da primeira dose... foi ladeira abaixo! Eu namorei e terminei durante a pandemia, agora comecei outro relacionamento há um mês. No meio de 2021, fiquei com um cara aleatório em um bar e descobri que ele já tinha ficado com uma amiga (cheguei a pedir dicas para ela de como conquistá-lo, mas desisti). A história não foi pra frente e continuei minha vida normalmente, até que me apaixonei pelo vendedor de uma loja – quem, por sinal, minha amiga também tinha pegado. Eu descobri que esse último garoto era irmão do menino que eu tinha beijado no bar, acreditam? Viramos cunhados. Pra melhorar: minha amiga começou a namorar o menino do bar. 
Acho que só me permiti viver essa história porque durante a pandemia entendi que a gente não tem controle sobre o futuro, só sobre o futuro. Levei a sério o lema de 'viver o que tem que ser vivido’."

Louise, 25, estudante de mestrado

 

lionfloss:
“Lauterbrunnen–Mürren Mountain Railway Mürren, Switzerland
”

"Quando a pandemia começou, meu então namorado se mudou para o Texas. Ficamos 11 meses sem nos ver... no momento em que ele voltou, tudo já estava diferente. 

Acabou a primeira onda da pandemia e fiquei solteira. Comecei a sair com outra pessoa, me envolvi, quase namorei... mas ele se mudou para Portugal. Foi assim que ganhei o apelido de 'Maria Ciências Sem Fronteiras'.  

Hoje estou 100% solteira e lido muito bem com isso. Com a pandemia entendi que preciso me colocar sempre em primeiro lugar, fiquei muito tempo em um relacionamento morno só para não ficar sozinha, só que hoje vejo que o autoamor é a principal maneira de enfrentar a solidão."

Giovanna Tramontin, 24, mestranda em física 

 therepublicofletters:
“Detail of The Reconciliation of the Montagues and Capulets by Frederic Leighton
”

"No começo da pandemia, estava em um relacionamento abusivo e cheguei a tentar suicídio por causa dele. Fiquei uns 3 meses completamente sozinha e decidi baixar o Tinder. No aplicativo, conheci um cara que estava em Campinas, mas estudava em Minas Gerais. Começamos a nos ver com uma certa frequência, até que oficializamos a união no ano passado. 

Quando as coisas normalizaram, ele teve que voltar para MG. A gente quase terminou por causa da distância, mas vimos que gostávamos muito um do outro e, ao invés de romper a relação, decidimos noivar. 

Hoje moramos juntos, adotamos gatos e estamos construindo uma vida a dois. Eu mudei de profissão, retifiquei meu sexo e larguei também um emprego tóxico. O nosso plano para o futuro? Adotar uma criança e constituir uma família."

Flor de Lima da Silva, 25, artesã
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© Texto Júlia Flores. Jornalista que escreve sobre comportamento, sexo, beleza e tantos outros assuntos do universo feminino. É especialista em desilusões amorosas, mas péssima para dar conselhos. Vive em busca de boas histórias e talvez você a encontre perto do mar.



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