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Por que mulheres lésbicas gozam mais que mulheres heterossexuais?

Por que mulheres lésbicas gozam mais que mulheres heterossexuais?

A ciência por trás do orgasmo feminino é uma história bastante recente. Durante muito tempo, a sexualidade das mulheres foi ignorada ou reduzida a um papel reprodutivo: a vagina seria a grande agente uma vez que a concepção ocorreria através dela. Só nos anos 1960, com a pesquisa clássica de Masters & Johnson (1966), a resposta sexual feminina foi descrita de forma sistemática, mostrando que mulheres passavam pelas mesmas fases fisiológicas de excitação, orgasmo e resolução que os homens. Foi um marco, mas ainda não abordava com profundidade as diferenças de orientação sexual ou desigualdades no prazer.

Na década de 1970, o Relatório Hite (1976) trouxe à tona algo até então pouco discutido: a grande maioria das mulheres relatava que o orgasmo dependia de estimulação clitoriana, e que muitas raramente gozavam apenas com penetração em relações heterossexuais. Embora criticado pela metodologia, o relatório foi revolucionário ao dar voz às próprias mulheres e denunciar a insatisfação sexual feminina em relações com homens.

Somente nos últimos quinze anos é que pesquisas em larga escala começaram a quantificar, com dados populacionais, o chamado orgasm gap — a diferença de frequência de orgasmos entre homens e mulheres, e também entre mulheres de diferentes orientações sexuais. E os resultados são consistentes: mulheres lésbicas têm mais chances de atingir o clímax do que mulheres heterossexuais.

Diversos estudos recentes ajudam a comprovar e entender esse cenário, vem acompanhar com a gente:

1. Frederick et al., 2018 (Archives of Sexual Behavior)

  • Um dos maiores levantamentos já feitos sobre o tema, com mais de 52 mil adultos nos EUA, mostrou a clara diferença de frequência de orgasmo entre grupos. Entre os homens: heterossexuais (95%), gays (89%) e bissexuais (88%). Já entre as mulheres: lésbicas (86%), bissexuais (66%) e heterossexuais (65%).

Aqui fica evidente que mulheres heterossexuais aparecem no último lugar da lista, enquanto lésbicas estão praticamente no mesmo patamar dos homens.

2. Garcia et al., 2014 (Journal of Sexual Medicine)

  • Em um levantamento nacional com solteiros nos EUA, os pesquisadores encontraram resultados muito próximos: lésbicas (74,7%), heterossexuais (61,6%) e bissexuais (58%).

O estudo reforça que a diferença não é casual, mas aparece de forma consistente em diferentes populações e metodologias.

3. Wetzel et al., 2023; 2024 (Universidade Rutgers)

  • Essas pesquisas não trazem números absolutos de orgasmo, mas ajudam a explicar o mecanismo por trás do gap. Mulheres tendem a perseguir menos o orgasmo quando sabem que tem pouco tempo (rapidinha) ou percebem o parceiro focado somente em si; e esperam mais estimulação clitoriana e orgasmo com parceiras do que com parceiros homens — e, portanto, acabam perseguindo menos o orgasmo nessas relações.

A diferença não está apenas nos corpos, mas nos “roteiros sexuais” que se repetem em cada tipo de relação: o tempo e tipo de estímulo e a possibilidade de chegar lá.

4. Herbenick et al., 2018 (Journal of Sex & Marital Therapy)

Um estudo representativo com 1.055 mulheres dos EUA (Herbenick et al., 2018) mostrou que:

  • apenas 18,4% disseram conseguir orgasmo apenas com penetração vaginal; 36,6% relataram que precisam de estimulação clitoriana junto da penetração para chegar lá;

Isso indica que a ausência de foco no clitóris nas relações heterossexuais é um dos principais fatores que ampliam o orgasm gap.

5. Hensel et al., 2021 (PLOS ONE)

Outro estudo nacional (Hensel et al., 2021, com mais de 3.000 mulheres) investigou as técnicas que tornam a penetração mais prazerosa. As mais citadas foram:

  • Rocking (83% das que usaram relataram mais prazer): manter o pênis ou toy todo inserido e roçar a base no clitóris;
  • Angling (87%): ajustar o ângulo da pelve para estimular a parede anterior da vagina junto ao clitóris;
  • Shallowing (84%): movimentos superficiais na entrada vaginal, próximos ao clitóris;

Esses dados reforçam que o clitóris é central para o orgasmo feminino e que a falta de atenção a ele em relações heterossexuais é um dos mecanismos principais do orgasm gap.

“Mulheres que acreditam que uma relação sexual com um parceiro homem será breve tendem a perseguir menos o orgasmo. (...) A estimulação clitoriana e a comunicação sexual já foram associadas ao aumento das chances de orgasmo em mulheres.”

Rutgers University – The Big O: What Shapes a Woman’s Pursuit of Pleasure?

Mas afinal, o que essas pesquisas nos mostram sobre o prazer feminino?

1) Clitóris como protagonista

Estudos mostram que apenas 18% das mulheres gozam só com penetração, enquanto a maioria precisa de estimulação direta ou combinada no clitóris (Herbenick et al., 2018). O sexo entre mulheres tende a priorizar isso — seja oral, manual ou com brinquedos — fazendo do clitóris o verdadeiro centro do prazer.

2) Conhecimento corporal e empatia

Quem tem vulva geralmente conhece melhor os ritmos, intensidades e pontos de prazer. Esse mapa corporal compartilhado facilita que parceiras entendam o que funciona, encurtando o caminho até o orgasmo.

3) Menos influência da pornografia

O sexo hétero muitas vezes ainda segue o “roteiro pornô” focado em penetração rápida e orgasmo masculino. Entre mulheres, há mais espaço para diversidade de estímulos: oral prolongado, masturbação mútua, carícias, vibros, alternância de papéis. Essa variedade é justamente o que aumenta a probabilidade de orgasmo.

4) Tempo e duração da relação

Pesquisas em larga escala (Frederick et al., 2018) mostraram que mulheres que têm encontros mais longos e incluem sexo oral e carícias manuais têm taxas mais altas de orgasmo. Relações entre mulheres tendem a se estender mais, com menos “fim automático” depois do orgasmo de um dos parceiros.

5) Comunicação aberta e menos scripts de gênero

Mulheres em relações lésbicas relatam mais facilidade em falar sobre desejos, pedir ajustes e negociar práticas. Além disso, há menos pressão de desempenho (ereção, ejaculação), o que diminui a ansiedade e aumenta a sintonia.

6) Orgasmos múltiplos mais comuns

Estudos indicam que, quando há maior estimulação clitoriana e diversidade de práticas, a chance de múltiplos orgasmos aumenta. Relações entre mulheres, ao não dependerem de um “fim centrado no pênis”, costumam permitir que o sexo continue após o primeiro clímax, multiplicando experiências.

7) Prazer como centro, não exceção

A ciência mostra um gap de cerca de 20 pontos percentuais entre mulheres hétero e lésbicas (Frederick et al., 2018; Garcia et al., 2014). A diferença não é biológica, mas cultural e relacional: quando o prazer feminino ocupa o centro do encontro, o orgasmo deixa de ser acaso e passa a ser regra.


Referências

  • Masters WH, Johnson VE. Human Sexual Response. Boston: Little, Brown and Company; 1966.
  • Hite S. The Hite Report: A Nationwide Study of Female Sexuality. New York: Macmillan; 1976.
  • Frederick DA, St John HK, Garcia JR, Lloyd EA. Differences in orgasm frequency among gay, lesbian, bisexual, and heterosexual men and women in a US national sample. Archives of Sexual Behavior. 2018;47(1):273–288.
  • Garcia JR, Lloyd EA, Wallen K, Fisher HE. Variation in orgasm occurrence by sexual orientation in a sample of U.S. singles. Journal of Sexual Medicine. 2014;11(11):2645–2652.
  • Wetzel GM, Cole S, Sanchez DT. Feasibility cues during a sexual encounter impact the strength of heterosexual women’s orgasm goal pursuit. Journal of Sex Research. 2023.
  • Wetzel GM, Sanchez DT, et al. The role of partner gender: How sexual expectations shape the pursuit of an orgasm goal for heterosexual, lesbian, and bisexual women. Social Psychological and Personality Science. 2024.
  • Herbenick D, Fu TC, et al. Women’s experiences with genital touching, sexual pleasure, and orgasm: Results from a U.S. probability sample of women ages 18 to 94. Journal of Sex & Marital Therapy. 2018;44(2):201–212.
  • Hensel DJ, Fortenberry JD, Herbenick D. Women’s techniques for making vaginal penetration more pleasurable: Results from a nationally representative study of adult women in the United States. PLOS ONE. 2021;16(4):e0249242.
  • Rutgers University. The Big O: What Shapes a Woman’s Pursuit of Pleasure? 2023. Disponível em: https://www.rutgers.edu/news/big-o-what-shapes-womans-pursuit-pleasure

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