O que autoexame e masturbação têm a ver? (Especial Outubro Rosa)

O que autoexame e masturbação têm a ver? Tudo! E se você pensou que é por causa do toque, não é só por isso. Na verdade, a principal semelhança entre eles é o autoconhecimento. 

A masturbação e o autoexame de mama têm muito em comum, porque requerem e nos proporcionam autoconhecimento e autocuidado. O exame não vai fazer com que você não tenha câncer, mas conhecendo a sua mama e fazendo o exame regularmente você será capaz de perceber a menor alteração possível para saber se precisa de um acompanhamento médico. Nesse sentido, autoconhecimento sobre a sua mama pode fazer com que o diagnóstico de câncer de mama ocorra de forma inicial, o que garante mais qualidade de vida durante o tratamento e chances maiores de cura.

No meu caso descobri um câncer de mama antes mesmo de ele ser palpável, pois tenho histórico familiar e uma mutação genética (igual à da Angelina Jolie) que aumentam as minhas chances de desenvolver a doença e, por isso, comecei exames de imagem como mamografia e ressonância cedo. Quando fui diagnosticada sabia que queria encarar tudo de peito aberto e vendo sempre o melhor da situação, como procuro fazer com outras situações da minha vida. 

Além dos efeitos físicos, precisei ressignificar muitas questões da minha vida, como a minha própria identidade feminina, maternidade, aleitamento e prazer.

O tratamento tem alguns efeitos colaterais, como cansaço, náusea e perda de cabelos (que eu amei a experiência de ficar careca). Também influencia nos hormônios, provocando, às vezes, quadros mais depressivos. A quimio também causa menopausa, que pode ser temporária ou permanente, e alterações na libido. Eu senti pouca alteração em relação a isso, mas sinto que com o fim do tratamento, sem o efeito da quimio e com novas perspectivas a libido tem aumentado bastante. Também é importante dizer que existem vários subtipos de câncer de mama, alguns relacionados a hormônios e outros não - que é o meu caso. Para os cânceres de mama hormonais há tratamentos com bloqueadores de hormônio, o que também pode impactar na vida sexual.

Além dos efeitos físicos, precisei ressignificar muitas questões da minha vida, como a minha própria identidade feminina, maternidade, aleitamento e prazer. Por ter a mutação genética, além de retirar a mama esquerda onde havia o tumor, retirei também a direita como forma de prevenção. Em função disso não poderei amamentar, se um dia eu engravidar. Além disso, é muito comum que mulheres com câncer de mama precisam retirar mamilo e aréola. Pra mim, além da questão estética, o mamilo desempenhava uma importante função relacionada ao prazer. Por isso e pelo tumor ser longe do mamilo, meu cirurgião conseguiu preservar o mamilo. Porém foi uma cirurgia bastante extensa, o que ocasionou um pouco de perda de sensibilidade, então também será um processo de me redescobrir em relação ao prazer - o que pode ser bastante positivo descobrir outros estímulos e outras formas de experienciar o prazer.

E para finalizar, gosto sempre de lembrar que o câncer de mama atinge mulheres de todas as idades, crenças, características física. Atinge mulheres que nunca engravidaram, grávidas e quem já teve filhos. É possível, inclusive, haver diagnóstico durante a gravidez e a amamentação. Então todas nós precisamos ficar atentas à nossa saúde e ao nosso corpo, de outubro a outubro. E saber que nem sempre o câncer é uma sentença de morte, pelo contrário, a gente descobre uma vida nova depois dele, ainda melhor!


Dados importantes:

  1. Estima-se cerca de 66 mil novos casos de câncer de mama no Brasil em 2020
  2. É importante fazer o autoexame e acompanhamento médico mesmo durante a pandemia. Cerca de 60% dos exames foram postergados por causa da pandemia, então é provável que alguns casos sejam diagnosticados sem ser em estágio inicial.
  3. Porto Alegre é a capital com maior incidência de câncer de mama; Rio Grande do Sul é o segundo estado com maior incidência
  4. Diagnóstico precoce garante chances de cura de cerca de 95%
  5. 85% dos casos de câncer de mama são multifatoriais. Apenas de 10% a 15% são em função e mutação genética como BRCA1 e BRCA2
  6. Prevenção: adoção de hábitos saudáveis: alimentação equilibrada, exercício físico regular, saúde mental, não fumar, não beber.

 

© Texto feito por Nicole Morás, que é jornalista e foi diagnosticada com câncer de mama aos 31 anos, em dezembro de 2019. Desde então ela tem documentado e levado informações sobre prevenção e tratamento no Instagram @deumpeitoaberto.

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