Carta aberta aos pais sobre educação sexual

Muitos pais enxergam a educação sexual como um monstro, algo que vai estimular a mente infantil ou adolescente com depravações e ensiná-los coisas reservadas apenas à intimidade de adultos. Pois que fique claro já de início: Não é, e não é nada nem minimamente perto disso. A educação sexual serve, principalmente, para proteger o quanto antes seus filhos, e obviamente ela vai ter um conteúdo apropriado para cada fase da vida. Analisando diferentes aspectos físicos, mentais e sociais para diferentes idades.

Infelizmente, crianças estão tendo acesso cada vez mais cedo à pornografia, segundo estudos espanhóis, meninos na faixa de 10 anos já iniciam esse tipo de consumo. E isso coincide muito com as idades de início ao uso de smartphones, estima-se que 75,1% das crianças com 12 anos já tenham acesso total ao celular dos pais. 

Então como a educação sexual pode ajudar a proteger? 

Primeiro, é importante que desde cedo se fale para seu filho ou filha, que ninguém pode mexer em suas partes íntimas, que pênis e vulvas são partes normais do corpo (e aqui também é importante usar os nomes reais de suas anatomias, assim como aprendemos que o nariz se chama nariz sem nenhum desconforto), mas que só eles podem encostar ali, e que caso terceiros tentem, que eles não tenham medo de avisar imediatamente para você. 

Ensinar a respeitar as diferenças também faz parte dessa conversa. Alguns colegas de seus filhos vão ter apenas uma mãe solo, outros apenas um pai, uns dois pais, e mais outros duas mães, tem também as que são criadas por tios, avós, irmãos mais velhos, e tantas outras variações, mas o que importa é que todos esses núcleos familiares são válidos e jamais devem ser diminuídos. 

Sobre a própria imagem, sabia que meninas com 3 e 4 anos já se apontam descontentes com o próprio corpo e que mudariam alguma coisa nele? Muitas escutam desde cedo que elas devem ser magras, bonitas, de cabelo liso, isso ou aquilo, gerando transtornos cruéis e uma série de traumas ao longo da vida. Isso também é algo a ser discutido com cuidado dentro de casa, sabemos que crianças têm tendências muito comuns de reproduzir os mesmos comportamentos que os de seus tutores. Portanto ao invés de reproduzir um auto-ódio à sua aparência, é lindo que se inicie um movimento de autocuidado, cuidar principalmente da mente, e trabalhar esse autoamor por você, e a expansão disso pra vida das pessoas que te cercam são apenas uma maravilhosa consequência. 

Agora sobre consentimento, parte vital, um bom jeito de iniciar é não forçando que as crianças aceitem contra a própria vontade dar um beijo no rosto daquela tia insistente, por exemplo. Alguém não tão próximo pediu pra segurar seu filho no colo e ele recusou? Não insista, assim todos já entendem que não é não, e que essa delimitação deve ser respeitada. Outra parte, crianças são seres cheios de afeto entre si, então é extremamente desnecessário a estimulação que ocorre aos meninos que eles tenham "namoradinha" desde cedo, que sejam "garanhões", ocorrendo até com uma certa glamourização de aproximações invasivas às colegas de idades aproximadas. Crianças são apenas crianças. Elas precisam de atenção, comida, uma base familiar não-violenta, carinho e outras coisas mais importantes que namoradinhas.  

Falar de anatomia, privacidade, consentimento e respeito são bases realmente importantes pra uma educação sexual honesta e saudável. Ela é uma ferramenta efetiva contra abusos e outros problemas que, infelizmente, crianças ainda são expostas.

E aí já numa fase da puberdade, onde hormônios são como montanhas-russas, encontre, da forma que fizer mais sentido pra você, dizer que a sexualidade é uma parte natural do ser humano, mas que é algo privado. Que é algo que deve ser sempre consensual, prazeroso, íntimo e feito com suas devidas proteções, mas que não é sujo ou errado. Esteja sempre aberto pra ouvir e tirar dúvidas quando necessário. Tranquilize-os, mostrando que eles não precisam se sentir pressionados a terem experiências que ainda não estão prontos para ter, só porque amigos ou colegas estão falando sobre. 

Falar dessas coisas podem ser bem difíceis, a maioria de nós mesmos nunca tivemos esse tipo de educação e tivemos que descobrir no erro e acerto o que a sexualidade significa. Mas saibam, pessoas que crescem em ambientes sem julgamentos e com informações não aterrorizantes sobre sexo, são as que fazem as escolhas mais conscientes e seguras desde o início. A taxa de IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis), gravidez indesejada, falsa educação sexual através da pornografia, e outras questões são bem menores entre quem teve uma real educação dentro de casa.  

Esperamos que cada vez mais os pais saibam dessas diferenças e se apoiem em informações verdadeiras e cuidadosas, junto com apoio de profissionais e da comunidade em que estão inseridos, para que essas crianças cresçam saudáveis e protegidas sempre. Desejamos à todos um dia dos pais consciente e presente.

_

© Texto de Clariana Leal, Educadora Sexual e sócia da Climaxxx.
Todos direitos reservados.

Deixe um comentário

Todos comentários são moderados antes de serem publicados