Como resgatar o amor-próprio depois de um coração partido?

Cá entre nós: ter o nosso coração partido pode ser algo extremamente adoecedor, tanto pro próprio coração quanto pra mente. E cá entre nós também: essa pauta não aparece muito entre os xóvens, né? Ainda mais no que tange o meio virtual, e portanto, superficial. Não parecemos aptos a falar sobre nossos corações partidos, nossas frustrações, quedas, tombos, no meio de tanta sucessagem alheia, vulgo, excesso de sucesso + sacanagem, ou seja, o combo perfeito das internetes. 

Além disso, precisamos compreender que esse coração partido pode se dar tanto pelas nossas relações afetivo-sexuais, quanto nas nossas relações de amizade, parcerias, relações profissionais, que podem envolver N acordos, e consequentemente, a quebra deles. Lembrando também que conceito de “desilusão amorosa” tá aí pra ser aplicado onde houver amor & expectativas envolvidos.

bell hooks, no livro “Tudo Sobre o Amor - Novas Perspectivas”, nos convida a enxergar o amor próprio através da autoestima. Então a pergunta correta aqui seria, como resgatar a autoestima depois de um coração partido?

Vem cá que no caminho a gente (tenta) te iluminar. 

No livro “Autoestima e seus seis pilares”, Nathaniel Branden elenca seis aspectos importantes da autoestima, sendo eles: a prática de viver conscientemente; a autoaceitação; a autorresponsabilidade; a autoafirmação; viver com propósito; e praticar a integridade pessoal. No discurso parece fácil mas a gente sabe que na prática é mais difícil. Como podemos (nos) aplicar esses conceitos?

Vamos junt@s?

Viver conscientemente 

Nada mais é do que pensar criticamente sobre o mundo que vivemos, e sobretudo nós mesmos, sem fantasias, fugas ou irrealidades que pairam somente sobre as nossas cabeças. Branden afirma: “Viver conscientemente significa buscar estar consciente de tudo o que sustenta nossas ações, propósitos, valores e objetivos – para melhorar nossa habilidade, seja ela qual for – e nos comportarmos de acordo com o que vemos e sabemos.” Pode parecer básico nos dias de hoje, mas sabemos que uma boa parcela principalmente da nossa bolha vive na inconsciência dos seus próprios atos.

 

Autoaceitação 

bell hooks conta que na sua jornada por superar a baixa autoestima, frases motivacionais ajudaram e muito a recuperar a sua energia vital e equilíbrio emocional, e afirma que funciona sim pra qualquer pessoa que esteja buscando se aceitar. Sabe aquele lance de escrever no próprio espelho as suas palavras de autoamor, pra te lembrar que "você é incrível, você faz a diferença, você pode, etc"? Então, ler e falar isso em voz alta todos os dias ajuda mesmo. A autoaceitação é muito difícil para muites de nós por conta daquela “voz interna” que fica sempre a julgar tudo e todos. Ao abandonar essas vozes negativas que permeiam nossas mentes, passamos a aceitar com mais leveza quem somos, e também a aceitar o outro e seus contextos. Quanto mais nos aceitamos, mais estamos preparados para aceitar o mundo e também para assumir responsabilidades para com ele. 

 

Autorresponsabilidade 

Branden define esse conceito como “a disposição de assumir a responsabilidade pelas minhas ações e realização dos meus objetivos (...) pelo meu objetivo e bem estar”. Assumir a responsabilidade significa ter a capacidade de inventar a nossa vida, de construir nosso destino de forma que ele nos leve ao nosso máximo potencial de bem estar, com a gente mesma e em sociedade. Claro, sem esquecer aqui das injustiças institucionalizadas e das realidades que não podemos alterar facilmente. Mas o que nos cabe, nos cabe somente a nós mesmas, é de nossa inteira responsabilidade caminhar, pra frente, com a nossa vida.

 

Autoafirmação 

Definida por Branden como “a disposição de se posicionar em favor de si mesmo, de ser quem sou abertamente, e de me tratar com respeito em todos os encontros humanos”. Sem mais, né? A passividade reduz a possibilidade de abrirmos nossos próprios caminhos e isso é um terreno fértil para a baixo autoestima. Claro que aqui, se tratando de mulheres, precisamos dizer que nossas criações, relações, o patriarcado, incutiram em nossas cabeças que sermos assertivas não é bem vindo, pelo contrário, é negativo, indesejado, e “pouco feminino”. Enquanto para os homens, emitir suas firmes e livres opiniões, é considerado um ponto positivo da sua masculinidade. Então, mulheres, reivindiquem seus espaços de autoafirmação: na rua, na mesa do jantar, na reunião, em casa, com as parcerias, com as amizades, com filhes, com everybody: you can, babe!

 

Viver com propósito 

Equivocadamente, as pessoas acreditam que viver com propósito diz respeito exclusivamente ao âmbito profissional, mas esquecem que na grande maioria dos casos, trabalhadores não podem fazer aquilo que amam. E sim, realizar um trabalho do qual não nos identificamos, pode atacar diretamente nossa autoestima e autoconfiança. Contudo, como aposta bell hooks, todos somos capazes de aprender a ter satisfação em qualquer papel que desempenhamos por necessidade ou desejo. Encontramos essa satisfação quando nos comprometemos totalmente com esse fazer, seja ele qual for. “Fazer bem o nosso trabalho, ainda que não gostemos do que estamos fazendo, suscita um sentimento de bem-estar que mantém nossa autoestima intacta.”, afirma a autora. A pergunta que fica pra todes nós, então, é: estamos fazendo bem aquilo que estamos fazendo?

 

A maioria de nós não foi ensinada que nossa capacidade de amar a nós mesmos seria moldada pelo trabalho que fazemos e que isso estaria diretamente relacionado ao nosso bem estar. Trazer amor para o ambiente de trabalho pode transmutar nosso espírito adoecido, e poder renovar o espírito é um ato de amor próprio que alimenta nosso crescimento e nos cura. bell hooks é taxativa: “Não é o que você faz, mas como.”

Praticar a integridade pessoal 

integridade significa inteireza, dignidade, honra, plenitude. Palavras muitas vezes distantes nesse nosso cotidiano conturbado, mas que devem ser pilares da nossa conduta, com nós mesmas e com absolutamente tudo ao nosso redor. Estar inteira nos permite estar em verdade, em presença, ali, naquele determinado tempo espaço, e a consciência disso pode ser uma grande aliada na construção dessa autoestima e desse amor próprio.

 

“Amor próprio é a base da nossa prática amorosa. Sem ele, nossos outros esforços amorosos falham. (...) Podemos nos dar o amor incondicional que é o fundamento para a aceitação e afirmação sustentadas. Quando nos damos esse presente precioso, somos capazes de alcançar os outros a partir de um lugar de satisfação, e não de falta.”  bell hooks.

 

 

© Texto de Marcela Büll. Marcela é atriz e sócia da Climaxxx, multiartista, produtora, empreendedora & trabalhadora do Brasil.

 

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