Orgasmo e Tantra

“O tantra não cura nada, porque não há o que ser curado”. 


Essa foi uma das primeiras frases que ouvi de Ayama na nossa entrevista. Um mix de alívio com desespero tomou conta de mim. Se por um lado me senti aliviada porque se não há o que curar, significa que não estamos doentes, por outro me senti um pouco desamparada. Sem a busca da cura dessas feridas internas, vai sobrar o quê? 

Aparentemente, o orgasmo. Você já vai entender porquê.

 

O tantra não vem para curar o feminino, mas sim, como um possível caminho para o resgate de uma feminilidade adoecida, subjugada. É uma ferramenta pra mudar estruturas sociais, de como o sexo e o prazer podem ser vistos como ferramentas de construção, de união entre as partes, e não como estrutura de dominação. Ser tântrico é pensar profundamente sobre consentimento, que só pode ser vivido plenamente quando acompanhado do autoconhecimento corporal e da autonomia do prazer.


1) O que é o tantra? 

O tantra é uma filosofia comportamental, de base matriarcal, sensorial e desrepressora, ligada à uma perspectiva oriental disseminada no território que hoje é a Índia e Paquistão. A peça central do tantra é o culto à feminilidade, fertilidade e divindade feminina. O tantra não é uma religião: é uma reconexão do ser humano com o divino, com o sagrado, e não com uma estrutura rígida. Tudo no tantra é sobre a permissão da vivência dessas experiências desrepressoras e sensoriais, que são manifestadas a partir do corpo, da respiração, e do som.

Tantra não é sobre sexo, não é sobre o coito, mas sim sobre a capacidade dessas duas divindades, duas energias dispostas a compartilharem suas kundalinis, uma conexão entre os chakras. Não existe a visão do sexo dentro do tantra por essa visão que conhecemos, patriarcal, religiosa, cristã. 


2) O que é o orgasmo na visão do tantra?

Para o tantra, a explicação do orgasmo é a mesma da ciência: um disparo neuromuscular gerado por algum estímulo interno ou externo, que libera dopamina e ocitocina. Por aí, tudo bem. A diferença da visão do tantra para nossa cultura patriarcal é que o tantra enxerga o orgasmo como um dos resultados de uma experiência que desperta sensações intensas no corpo, e não como o fim em si. Se para nossa cultura o orgasmo é a linha de chegada, para o tantra é só mais uma manifestação, que não necessariamente está relacionada com o estímulo genital e sexual.


Sendo assim, o orgasmo não é necessariamente sexualizado, mas mais tratado como a capacidade do corpo em acumular e espalhar a energia através dos 5 sentidos. Orgasmo, do grego orgaein que significa “inchar”, “intumescer” ou “plenitude”, e tem a ver com a movimentação dos líquidos, fluídos corporais e humores (hormônios): dopamina, ocitocina e cortisol.


Essa experiência pode ser alcançada através da meditação, massagens, dança, contato sexual, corporal ou da simples respiração. Na visão tântrica, o orgasmo é um caminho de expansão: uma forma de explorar o corpo sem negar a sexualidade e sua potência.


Como já dissemos, para o tantra, tudo é feminino. A experiência orgástica, por consequência, também é essencialmente feminina, sendo a mulher e sua capacidade multiorgástica enaltecidas, e não o contrário. Nesse caminho, os homens que seguem enxergam (ou deveriam enxergar) o orgasmo feminino como um modelo, e a partir desse modelo, desenvolver-se.



 

3) Queria que você falasse um pouco sobre por que o tantra, no ocidente, é relacionado com o kama sutra e com a retenção orgástica?


Você importa uma perspectiva antiga, de outra cultura, e ela vai chegar com ruído, e foi isso que aconteceu com o tantra. No ocidente moderno o tantra criou uma relação com a performance e com resultados: orgasmos melhores, vida sexual melhor. Incorpora-se uma perspectiva produtivista, totalmente equivocada, uma vez que o tantra é justamente sair dessa performance, desse personagem, e encarar o corpo e suas manifestações exatamente como ele é.


Outro erro é conectar o tantra com o kama sutra, que é um manual ilustrado de posições sexuais, muito mais recente que o tantra e oriundo de outra cultura. 


A conexão do orgasmo com ejaculação é um equívoco, uma vez que pode-se ter ejaculação vazia. A associação do orgasmo com a ejaculação não é obrigatória, um não está direta e necessariamente aliado ao outro. O orgasmo não é uma experiência do sexo, mas sim do corpo, é uma experiência corporal. O sexo que conhecemos no mundo ocidental é exaustivo, e geralmente pra mulher não é nem prazeroso. No Tantra você alcança o orgasmo de diversas maneiras, explorando sua capacidade orgástica e seu corpo. 


4) O tantra é para todes? Existe algum caminho iniciático?


Todos podem procurar o tantra, mas nem todos se tornarão tântricos. Ser tântrico é sobre acreditar e praticar esse sistema matriarcal, sobre valorizar a mulher como fonte da vida e também como referência de vida, e para isso, é necessário despir-se dessas armaduras do patriarcado. Isso significa que você até pode viver experiências tântricas, mas ser tântrico é de fato abrir mão dessa sociedade patriarcal, e passar a adotar essa nova perspectiva de entrega, aceitação e fluidez. É acolher o silêncio, a não-agressividade, a fluidez da vida e a impermanência das coisas. O tantra é para todes, mas nem todes são para o tantra.


5) Existe alguma relação entre terapia orgástica e tantra?


Existe sim. Como já falamos anteriormente, o tantra tem esse conjunto de práticas e rituais próprios, que com o tempo, passaram a ser empacotados individualmente, perdendo a conexão primordial com a filosofia. A modalidade de massagem tântrica (ou orgástica) nada mais é do que uma adaptação de uma das práticas tântricas com um viés terapêutico ocidental. Um dos responsáveis por isso foi Reich, seguidor de Freud, que passou a levar as massagens para o consultório, batizando-as de vegetoterapia. O método consistia em realizar massagens em seus pacientes seminus para dissolver o que Reich chamou de "armadura muscular", e claro que deu o que falar. 


Reich e Lowen tinham a visão de que o corpo respondia à repressão gerando tensão muscular, o que, com o passar do tempo, se traduzia em dores crônicas e doenças. Dizia que era uma "armadura" ou uma "couraça" que moldava o físico e o caráter do indivíduo e determinava como essa pessoa encarava sua existência.


E foi através desse pensamento que Reich uniu terapia corporal com rituais tântricos e orgasmos, que passaram a ser o produto final e objetivo para alcançar a cura e o bem-estar. Isso tudo é uma mínima parte do que são os rituais tântricos, que são uma filosofia comportamental, que é praticada no dia-a-dia.


6) E o maithuna, o que é? Quem pratica?

Maithuna é o ato sexual dentro do tantra, o sexo tântrico. É um evento dentro do tantra que abarca o sexo ritualístico, e que normalmente tem relação com a penetração passiva, que é apenas uma parte do sexo e só acontece se a mulher pedir e estiver com vontade.


Em algumas sendas, o maithuna era uma das práticas do panchamakara, ou os 5m’s, ou 5 transgressões. Os 5Ms eram comer amêndoas tostadas pra aumentar a libido, beber vinho, comer carne vemelha, comer peixe e ritualizar esse ritual de conexão a partir do sexo.


A sexualidade que conhecemos hoje, heterossexual, patriarcal, reprimida, precisa ser ressignificada e o tantra pode ser um caminho pra isso. A penetração é uma troca sexual muito forte e na maioria das vezes pode ser violenta e agressiva para mulheres. Seria muito importante se homens passassem a ser penetrados na sua vida sexual, para entenderem toda essa subjetividade.



7) O tantra é essa filosofia que tem mais de 8 mil anos. Como você pensa gênero e orientação sexual dentro desse contexto?


É perfeitamente tântrico refletir em como o ambiente do tantra pode ser mais inclusivo e acolhedor, e nesse sentido, não existe a menor necessidade de manter o tantra intocado. É necessário que façamos uma atualização hermenêutica, considerando a não binariedade dos corpos em uma nova perspectiva mais fluida. Pessoas que não estão dentro do espectro do que se tinha conhecimento há 8 mil anos atrás também devem, hoje, ter espaço e acolhimento para que possam vivenciar essa experiência. O tantra é inclusivo e essa inclusão deve ser o primordial. Qualquer pessoa deve ter a possibilidade de refletir sobre a prática tântrica e ser o mais inclusivo e acessível possível.


8) O tantra é matriarcal, no entanto temos várias figuras masculinas que disseminaram o tantra por aí, como o Osho e Prem Baba. Por que você acha que ainda são homens?


Se deve ao fato de ainda estarmos inseridos em uma sociedade patriarcal, onde a maioria dos homens teve o privilégio e o poder social de viajar, fazer essas imersões nesses grupos, e assim poder estudar e disseminar. De maneira geral, foram mais homens para a Índia, mais homens tiveram o privilégio de serem iniciados. Mas mesmo os homens que são iniciados no tantra deveriam ser iniciados por mulheres, e nesse ponto, é importante fazermos essa autocrítica, porque a essência do tantra é feminina. Precisamos depurar esse sistema patriarcal dos nossos corpos e isso só poderá se dar num sistema matriarcal, da natureza, dos ciclos, etc.

 

 

© Entrevistamos Ayama, ser tântrico. Entrevista feita por Larissa Ely e Marcela Büll, sócias da Climaxxx.

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